• Dra. Emanuella N. Halabi

"Só um 'Rivotrilzinho'"?

Sejamos realistas: jamais é, apenas, um “Rivotrilzinho”. É assim que começa: um aqui, outro ali... até estar tomando todos os dias e aumentando periodicamente as dosagens, acreditando estar tudo nos conformes da normalidade.

Dentro desta tão usual classe de medicamentos, encontramos Clonazepam, Diazepam, Lorazepam, Bromazepam, Alprazolam, Cloxazolam, Flunitrazepam, etc, carinhosa e popularmente conhecidos como Rivotril, Frontal, Lorax, Lexotan, Apraz, Olcadil, Rohypnol e por aí vão milhares de medicações comerciais. Todos os nomes anteriormente citados fazem parte de uma categoria de medicações hipnóticas conhecida como Benzodiazepínicos.

Todas essas adoráveis e – como diriam muitos – santas medicações, que consideramos como inofensivas, posso dizer que fazem parte do escopo dos MAIORES VENENOS DA MEDICINA e, convenhamos, a esmagadora maioria dos médicos não tem conhecimento profundo desse tipo de classe medicamentosa, prescrevendo, praticamente, para colocarmos em nossa caixa d’água.





"Beba-me.

NÃO é veneno."




Como médica na área de Psiquiatria, confesso que – perdoem-me os modos – tenho vontade de cortar os pulsos, quando um paciente vem ao consultório, dizendo que toma qualquer uma dessas medicações, ao menos uma vez ao dia, há cinco, dez, quinze, vinte, trinta anos, porque o cardiologista prescreveu, já que “eu era uma pessoa muito nervosa”.


Colegas, se não têm conhecimento para fazer uso de medicações hipnóticas ou só ACHAM, que sabem, NÃO PRESCREVAM! POR FAVOR, NÃO PRESCREVAM!

Colegas, queridos leitores, compreendo que nem todos têm conhecimento profundo de determinadas medicações, da mesma maneira que eu não conheço com tantos detalhes as medicações mais específicas cardiológicas, endocrinológicas, angiológicas, etc. Claro que todos os médicos possuem um conhecimento generalizado de grande parte das medicações – já que nos formamos clínicos gerais – entretanto não somos capazes de realizar um tratamento específico.

E o que fazemos, quando não sabemos exatamente como tratar?


NÃO TRATE. MANDE PARA O ESPECIALISTA!

Não inventem de prescrever isso e aquilo, se não têm certeza de que maneira funciona!

A verdade é a seguinte: as medicações psiquiátricas, ainda que façam parte de um tratamento como qualquer outro – essa discussão entrará em outra postagem –, são selecionadas dentro de muitas especificações, que devem ser colhidas através de uma boa condução da história [anamnese] do paciente. Com uma anamnese mal colhida, até mesmo o psiquiatra é capaz de passar medicações, que nada têm a ver com a necessidade do indivíduo em questão [isso é algo que também se vê com muita frequência]!

De uma forma geral, colocando a grosso modo, o tratamento é escolhido, por assim dizer, conforme seus efeitos colaterais, que se tornam benéficos para os pacientes. A medicação, portanto, é “especial”, escolhida a dedo para aquela pessoa, caso contrário, o efeito colateral torna-se um grande problema!

Como exemplo disso, certa vez uma paciente chegou ao meu consultório com sintomas de depressão e ansiedade, sendo um deles a falta de apetite há meses, emagrecimento, tendo sido prescrito, por um médico de outra especialidade, uma medicação que corta completamente o apetite! Ou seja, uma medicação que era para ajudar a paciente, piorou o seu quadro.

Outro caso mais grave desse tipo de comportamento, é o paciente cardiológico estar no consultório do seu médico e ser prescrita uma medicação que pode piorar o quadro cardíaco; isso já foi visto por mim diversas vezes! Quero dizer: o médico deseja ajudar o paciente, lança mão de suas medicações, porém acaba inserindo algo de outra especialidade e pode fazer com que seu quadro piore!

Existem casos – até com alguma frequência –, nos quais o médico prescreve esse tipo de medicação para se livrar do paciente, já que ele é “muito chato e queixoso”.

Da mesma forma que não interfiro diretamente em maiores complicações de outras especialidades, também não quero que façam o mesmo com a minha.

Com toda a sinceridade, dá muito trabalho trocar medicação e retirar algo que foi prescrito erroneamente.

Dito isto, posso inserir, agora, o assunto crítico desta postagem: os benzodiazepínicos.

Nada aqui será dito com uma contemplação médica, mas, sim, o suficiente para que as pessoas compreendam o tipo de medicação com a qual estão lidando diariamente.

O benzodiazepínico é um “amigo falso”.


Por que um amigo falso?


"Coma-me, Pegue um, Experimente-me."

Ele funciona? SIM!

Ele reduz a ansiedade rapidamente? SIM!

Ele corta um ataque de pânico? SIM!

Ele faz com que a gente durma mais rápido? SIM!

Ele sustenta o sono ao longo da noite? SIM!


... Porém ...


Ele causa dependência? SIM.

Causa lapsos de memória? SIM.

Piora a nossa cognição? SIM.

Pode acelerar processos de demência? SIM.

Pode piorar quadros depressivos e ansiosos em geral? SIM.

Diminui a nossa expectativa de vida? SIM.

Mais importante: o benzodiazepínico trata alguma doença? NÃO.


Agora, vamos destrinchar este assunto:

O benzodiazepínico é, incontestavelmente, uma grande classe de medicação!

Por que isso, se causa tantos malefícios? Porque é o tipo de medicação, que deve ser usada de forma correta, CONTROLADA PELO MÉDICO, usualmente emergencial. Dentro desse quadro, não provocará qualquer tipo de dependência ou as alterações expressivas supracitadas; muito pelo contrário!

Esse tipo de medicação, por sua ação rápida, tem a capacidade de controlar determinadas situações de ansiedade, agitação, desconforto do paciente, durante o período em que a medicação, que é usada para o tratamento, ainda não surtiu efeito. De fato, as medicações psiquiátricas, de uma forma geral, podem levar de dias a semanas para começar a trazer alguma melhora para a pessoa, de forma que os benzodiazepínicos ajudam expressivamente durante esse período, mas logo são retirados do tratamento.

Eu, por outro lado, estou excluindo completamente o uso desse tipo de medicação nas minhas prescrições, pois consigo lançar mão de outras, que não causam esses efeitos maléficos específicos.

O problema todo de iniciar o uso de benzo em um tratamento, é o paciente se achar na liberdade de fazer uso das dosagens como bem entender; e isso realmente acontece muito! Acontece, porque não é de conhecimento geral as reais complicações dessas medicações, já que todo mundo usa de vez em quando ou sempre.

Como funciona muito bem e, muitas vezes, não controla 100% determinadas situações, é muito comum que as pessoas comecem a aumentar as dosagens por conta própria, passar a comprar na farmácia sem receita médica – o que é crime, mas também acontece com muita frequência – ou, evidentemente, pedir aquele comprimidinho para a prima da tia da avó ou, até mesmo, para outro médico, quando se está em uma consulta de rotina.

Conseguir a medicação é muito fácil; difícil é se livrar dela!

E isso leva às complicações do uso de benzodiazepínicos, pois a dependência é progressiva, não somente pelo organismo, como, igualmente, pelo nosso próprio comportamento.

No que diz respeito ao organismo, com o passar do tempo, é criada, de forma progressiva, resistência ao efeito da medicação, portanto a dosagem será aumentada gradativamente, conforme a pessoa não se sentir mais assistida por ele. Muitas das vezes a pessoa não necessita de aumentar a dosagem da medicação, entretanto a ausência dela causa um sofrimento e uma crise de abstinência sem tamanho.


É como na dependência química?

SIM! ISSO É DEPENDÊNCIA QUÍMICA!

"Coma-me. Beba-me."

Medicações, lembrem-se, são drogas! São lícitas, mas não deixam de ser drogas.

As medicações psicotrópicas – ou seja, que têm ação no Sistema Nervoso Central – são prescritas de forma controlada, com receituários específicos, propositalmente! Elas precisam ser retidas e impedidas de serem usadas sem acompanhamento médico, justamente para não causar dependência e ter complicações muito maiores no futuro.

Infelizmente, ao menos nesse país, são incontáveis as farmácias e lugares avulsos que fornecem esse tipo de medicação.


Quanto ao nosso comportamento com a medicação, preciso deixar algo bastante claro: você é humano. Eu sou humana, o senhor da esquina é humano, o padeiro é humano, o professor é humano; todos são humanos e são submetidos ao estresse diariamente.

É normal ficarmos com raiva, tristes, ansiosos, com medo, felizes, porque todos esses mecanismos fazem parte do nosso organismo, parte do que nós somos! Os animais irracionais também têm esse tipo de resposta; são totalmente involuntárias e compõem não somente o que somos e nossas necessidades, mas também um processo de defesa pessoal.


“Ah, mas eu já fiquei uma semana sem dormir!”

Por quê?

“Eu fiquei esperando, que ‘esse lugar’ resolvesse um problema para mim.”

Certo; então, você TEVE um motivo para ficar sem dormir. Estava em um período de estresse, ansiedade, desconforto, porque, sim, há muitas coisas que não estão somente nas nossas mãos e dependemos do serviço de terceiros para concretizá-los.

Voltou a dormir depois que resolveu, não foi?

“Voltei.”

Você é normal.


“Passei três meses muito nervosa, com dificuldade para dormir e comer!”

Por quê?

“Porque eu estava me preparando para um concurso público! Estudei muito, quase não via ninguém e não tinha vontade de comer; só estudava!”

Ah! Mas temos aqui um dado essencial: você ESTUDOU. Há pessoas que ficam ansiosas e têm muito apetite, outras, quase não têm, mas o ponto aqui é que conseguiu estudar, conseguiu se focar. Obviamente, que houve um estresse muito grande para esse tipo de prova.

Consideremos que concurso público é algo extremamente disputado, com um número brutal e injustamente limitado de vagas, que exige as notas mais altas do país. Então, vamos lá: você está competindo com um estado inteiro – senão uma região ou um país –, por, digamos, 20 vagas?

Eu gostaria de saber, na minha completa ignorância, que tipo de criatura super-humana – totalmente liberta de sentimentos e susceptibilidade ao meio ambiente – é capaz de ficar controlada e sem um pingo de balanço em uma situação dessas. Eu realmente quero saber. Alguém, por gentileza, me avise, se conhecer alguém.

Voltando esse tipo de comparação para nós, brasileiros: o Brasil é um país rico, entretanto de distribuição econômica assustadoramente desigual, onde somos obrigados a, praticamente, vender a nossa alma para conseguir um emprego estável e decente. Quanto de nós saem de casa, antes dos trinta anos de idade, com uma renda completamente estável e independente dos pais?

Nesse panorama, podemos dizer que vivemos uma cobrança de proporções gigantescas, e não esperaria menos de uma pessoa passar três meses em claro, só estudando, para conseguir passar no concurso!

“Ah, mas eu não passei! Estudei e não passei.”

Voltemos à grande competitividade e analisemos a probabilidade pequena de passar. Muitas vezes competimos com pessoas, que estão nessa jornada de estudos há anos e são mais velhas; isso faz muita diferença. São diversas as variáveis para que uma pessoa possa efetivamente passar, entretanto o ponto é a capacidade de estudar. Houve concentração, houve possibilidade de estudo, houve foco, passando ou não.

A ansiedade é um fantástico – E ESSENCIAL – mecanismo de defesa. A ansiedade traz medo, desconforto, de algo que pode acontecer; é o receio do amanhã. Dessa maneira, existe um cuidado maior, uma atenção dobrada no que pode acontecer para evitar que algo dê errado. Não importa ter passado ou não [claro que importa, estou me referindo ao assunto em questão], mas, sim, que foi capaz de estudar.

Você estudou? Você está normal!

Voltou a dormir e comer? Está normal!


Mais uma vez, digo que precisamos lembrar que somos humanos, que precisamos desse tipo de resposta do nosso organismo, inclusive as mais expressivas, como a raiva – depois de tanto ser provocado –, o choro, o medo e assim vai. A dor é um mecanismo de alerta e nossos sentimentos também são! Respostas cerebrais são dadas constantemente e precisamos ser capazes de lidar com ela.

Problema: uso abusivo de benzodiazepínicos, por exemplo [refiro-me a esses, pois é o tema em questão, mas podemos inserir aqui diversos tipos de medicação, que não vem ao caso].

O que mais acontece é:

  • A pessoa fica nervosa: toma um Rivotril.

  • Se estressou na rua: toma um Frontal.

  • Não dormiu essa noite: toma um Olcadil.

  • Está estressada pelas notícias da televisão: toma um Lexotan.

  • Brigou com a mãe: toma um Lorax.

  • Terminou com o namorado: toma um Apraz.

O estresse serve de resposta para o corpo compreender que algo está desagradável e compensar. Precisamos compreender, que temos que passar por essas coisas, para que o nosso organismo se permita compensar e lidar melhor com situações semelhantes no futuro.

Podemos perceber, que diversas são as vezes, que algo acontece repetidas vezes e chega um momento que dizemos: “Ah, já acostumei!” ou, referindo ao concurso, “Estou estudando, dando o meu melhor; se passar, passei! Senão, tento ano que vem de novo.”

É isso que temos que fazer!

Precisamos ficar ansiosos, com medo, com raiva! Podemos ficar sem dormir, ficar tristes! Somos normais!

Vamos parar com essa cultura terrível, que nos foi imposta, de que precisamos de medicações para sobreviver e resolver os nossos problemas! Elas não resolvem nada!

Convenhamos: quando o efeito da medicação passa, o problema continua lá, não é mesmo? O desconforto volta todo novamente, pois o problema não foi solucionado, podendo ser algo que você está sendo diariamente exposto ou, evidentemente, um transtorno psiquiátrico – que deve ser tratado de forma CORRETA, com medicações específicas.

Neste último caso, fazendo uma comparação com as citações que acabei de fazer, é claro que há situações em que somos tão constantemente expostos, que acabamos por desenvolver um problema!


“Eu preciso estudar para o concurso. É o meu sonho! No começo estava estudando, mas comecei a passar mal toda vez que olhava para os livros; só de pensar em estudar, começo a chorar; tento dormir e não consigo, o que também não ajuda nos meus estudos, pois fico muito lenta.”

Ah! Aqui vemos um caso de uma pessoa, que está vivendo uma dificuldade muito grande, pois a ansiedade é tanta, tão agressiva, que está sendo impeditiva de completar o seu objetivo. Assim, portanto, é interessante um tratamento para essa ansiedade, que deixou de ser um mecanismo de defesa para ser um bloqueio.

Pode-se fazer uso de benzodiazepínicos? Pode, sim, mas deixe que o médico psiquiatra prescreva se ele achar, que precisa. Há outras medicações, que cortam a ansiedade, ajudam a dormir, que também complementam o tratamento psiquiátrico, até que a principal [ou principais] medicações façam efeito. Como eu disse, não uso mais benzodiazepínicos nas minhas prescrições, somente quando me vejo absolutamente sem opções... o que nunca acontece, pois sempre dou um jeito.


Por que, então, são falsos amigos?


Porque prometem e não cumprem. Prometem melhora, prometem conforto e logo perdemos esse conforto, essa ilusão, necessitando cada vez mais e mais dele. Oferecem tudo e rapidamente tiram, deixando-nos desolados e sem compreender o que acontece. Dependemos deles... para nada; apenas por depender.


... Realmente quer pagar o preço de confiar?

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