• Dra. Emanuella N. Halabi

Quando o médico finge que trabalha

Sou uma pessoa absolutamente livre de preconceitos; isso inclui falar mal – jamais pouco – da classe médica.

Assim como qualquer profissional, de qualquer área representada pelo seu humano, os médicos possuem, entre eles, uma montante considerável de criaturas desagradáveis, que não trabalham por preguiça ou por não darem, de fato, valor à profissão que escolheram. Isso é, no mínimo, absurdo, mas se estende a todas as profissões. Todas são importantes, todas servem para perpetuar a nossa espécie e evolução.

Hoje, contudo, não é um dia para isso; não tenho a pretensão de falar mal da classe médica. Desta vez, entrarei com uma defesa e isso inclui a mim mesma.

Não sei dizer se posso considerar, exatamente, como uma defesa, mas, talvez, um protesto, um pedido de socorro, de forma que possa ser compreendida e faça compreender o lado de alguns, ainda que não todos [evidentemente não posso generalizar].

Meu objetivo, com toda a certeza, não é falar de política ou políticos específicos – até porque isso não é inerente a um partido ou uma forma de governo, mas no mau caratismo de determinados seres humanos –, apenas relatar fatos, que fizeram com que abandonasse por completo o serviço público de saúde, senão estaria internada em um hospital psiquiátrico, sofrendo de depressão melancólica.


Trabalhei durante três anos no Sistema Único de Saúde [SUS], em uma Clínica da Família, iniciando poucos meses após a minha formatura. Como todo bom médico recém-formado, com medo até de prescrever Dipirona, vem aquele pensamento utópico, porém fantástico e envolvente, de que será capaz de mudar o mundo pouco a pouco com o seu carinho, cuidado e atenção para com aqueles que precisam de ajuda.

Os primeiros meses foram relativamente fáceis. Eu gostava. Realmente gostava.

Minha ilusão não era de 100%, pois sempre soube que todo o serviço prestado tem falhas. De tal forma, inicialmente, consegui lidar com as complicações e manejava como podia.

A questão toda é que a cobertura nebulosa da ilusão, gradativamente, vai sendo desfeita pelo tempo. O tempo é inversamente proporcional à ilusão: enquanto o primeiro caminha e aumenta, o segundo cai de modo vertiginoso.

Cobrança é algo que existe e nunca tive dificuldades em lidar com ela. Sendo alguém que muito me cobra, a cobrança geral de um sistema de trabalho também deve ser aceito coerentemente. Desta maneira, com o passar dos meses, me percebi, lentamente, sendo engolida, porque aceitava de tudo.

Todos são números. Você é obrigado a fornecer números cada vez mais expressivos para a prefeitura e não, qualidade.

Para que qualidade, não é mesmo, se podemos divulgar números altos de atendimento, quando a pessoa foi atendida em três minutos, em um grupo de 50 pessoas em uma sala, onde o enfermeiro afere a pressão e você renova prescrição?

Não se choquem. É a verdade. É a realidade nua e crua: maldosa, grosseira, podre, vinda diretamente do inferno, que é o desvio de dinheiro e competência.


“Por que desvio de dinheiro, se o médico, enfermeiro e toda a equipe não trabalha mais tempo? Não devia aumentar a carga horária?”

Bem, se querem que trabalhemos 24h por dia, 7 dias por semana, quem sabe, claro, não consigamos atender a uma área por completo... ou, possivelmente, não. Muito possivelmente.

Na Clínica da Família, as equipes – compostas de um médico, um enfermeiro, um técnico de enfermagem e cinco ou seis agentes comunitários – são divididas por territórios, os quais deveriam ter, no máximo, 2.500 pessoas... o que nunca procedeu.

As áreas tinham, pelo menos, 3.000 habitantes – nivelando muito por baixo –, dos quais a esmagadora maioria vivia em territórios de risco e carência. Dessa forma, toda a atenção deveria ser dada a essas pessoas, o que, claramente, era impossível, pois como uma equipe tão pequena poderia dar conta de tanta gente?

Deveria haver, pelo menos, o dobro de profissionais por equipe, o que, evidentemente, nunca aconteceu e, pelo andar da carruagem, não vai acontecer nunca aqui.

Na época da Copa do Mundo de 2014, na qual diversos estádios de futebol foram erguidos, houve a renovação por completo do Estádio do Maracanã.

Fui chamada pela direção da Clínica, assim como todos os outros médicos de equipe, para que fôssemos informados – ninguém perguntou nada, obviamente –, de que não era mais para pedirmos exame até a segunda ordem, pois o Estado estava sem dinheiro para cobri-los.


“E o que eu faço com pacientes hipertensos e diabéticos, que precisam de controle semestral de exames?” ~ perguntei eu.

“É para dizer que o laboratório está em transição.” Foi a resposta que recebi.


Bem, desta forma eu, como grande cumpridora de ordens, fiz logo questão de deixar todos os pacientes muito bem informados sobre o que estava se passando naquele momento e fazendo uso da minha fantástica e desagradável expressão de ironia:




“Senhor[a], não posso pedir seus exames de rotina, porque o Maracanã está subindo!”






NÃO. EU NÃO TENHO MEDO DE FALAR ISSO EM UM BLOG OU EM UMA REDE SOCIAL.

Quero ver a prefeitura vir me confrontar e dizer que é mentira.

Gostaria de me desculpar, mas vou falando dessas coisas e começo a me exaltar, fico irritada e, por vezes, tenho vontade de chorar ou choro mesmo. Houve algumas situações, nas quais tive efetivamente esse tipo de reação, tendo sido, uma delas, um menino novo, com um quadro complicado de diabetes, que estava em processo de necrose e eu não conseguia, de jeito nenhum, uma vaga de emergência para transferi-lo.


“Doutor...” Disse eu ao telefone. “... esse menino vai perder o pé e vai morrer, caso houver uma infecção.”
“Não, querida, ele não vai morrer. Morrer não vai.”

... O que diabos significa essa resposta?!

Diversas foram as tentativas de solicitação de ambulância e vaga para levá-lo; ele perderia aquele pé... e perdeu.

Foram quase 48 horas de espera para avaliação do pé diabético e não havia mais nada que pudesse ser feito, além da amputação.

A verdade, é que eu ter corrido contra o tempo não adiantou de absolutamente nada, porque os outros serviços de atendimento ficaram parados.

Certa vez, um colega médico recé-formado, alguém de quem eu era muito próximo, me ligou chorando, dizendo que não conseguiu salvar um menino na emergência, porque não tinha antibiótico. Um quadro de meningite sempre é emergencial e em menos de 24 horas pode matar. Não havia nada que pudesse ser feito e ele assistiu a morte de um jovem de 28 anos de idade.

É o que acham que nós queremos? Ver as pessoas morrendo em nossas mãos?

Que tipo de profissionais somos, se não temos um pingo de humanidade?

Na época em que ouvi, ainda era acadêmica e estava da metade para o final da faculdade. Aquelas palavras me foram dolorosas, mas não foram tão intensas até que pude experimentar a mesma sensação:

IMPOTÊNCIA.

Você sabe o que fazer, você sabe que pode fazer... mas não faz, porque suas mãos estão vazias.


Não há equipamentos,

não há medicações,

não há profissionais suficientes e

- muitas vezes, como sabemos –

muitos deles não querem trabalhar.

Ninguém trabalha sozinho.


O médico não é nada se não tiver o enfermeiro, o técnico de enfermagem, técnico de imagens. Nada. Nós não fazemos NADA sozinhos.

Tanto não fazemos nada sozinhos, que isso é deixado muito claro, quando nos formamos e percebemos, que, verdadeiramente, de mãos vazias, veremos todos a nossa volta perdendo a sua chance.

Tive que respirar desse ar podre para poder cuspir as minhas próprias lágrimas e suar sangue todos os dias.

Além disso, ao longo dos anos, percebi que somos colocados uns contra os outros – dentre os médicos – assim como incentivam a população a ter raiva de nós, quando, na verdade, não passamos de uma horda de “pau mandado”e somos tão vítimas do sistema quanto os não-médicos, afinal, também somos pacientes; também somos humanos!

Sabemos o que é perder alguma pessoa querida, sabemos o quão doloroso seria perder alguém por falta de socorro, sabemos quando uma doença não tem cura e só esperamos pela resolução daquilo. Todos sabemos como funciona e também temos sentimentos. O que acontece, entretanto, é que acabamos todos sendo vítimas, porque não sabemos o que o outro colega está passando.

Certa vez, um paciente chegou e me pediu para que o encaminhasse a determinado hospital, pois lá o médico disse, que estava cheio de vagas e que nós, médicos de família, deveríamos parar de ser preguiçosos e colocar os pacientes nas vagas. A questão toda é que essas vagas não aparecem no sistema para nós, de forma que não conseguimos enviar paciente nenhum! Então, ficamos com um doente que precisa de uma ajuda mais especializada e os hospitais, vazios. VAZIOS.

Claro que ficam vazios! Não têm recurso algum para receber um paciente!

Muitos desanimaram, desistiram e não são mais os mesmos médicos; tornaram-se desleixados.

Não concordo, mas até compreendo. Você se anestesia para não entrar no ciclo de morte e sofrimento. Você se forma para não ter como exercer a sua profissão; você se forma para ver o outro morrer na sua mão e não poder fazer nada, quando, sim, havia possibilidade e uma grande chance; muitas vezes uma resolução ruim nem existiria, se houvesse o aparato necessário.

Aí vem aquela expressão dura e insensível, acompanhada de um tom aparentemente desprendido:

“Ele não resistiu. Sinto muito.”

Dureza, insensibilidade... Muitas vezes é a tentativa de mascarar uma dor.

Não nos chamem de insensíveis... Precisamos endurecer para sobreviver ao sofrimento daqueles, que pedem ajuda, do mesmo modo que para aguentar um sistema injusto, que não nos fornece os materiais necessários e somos obrigados a assistir de camarote uma derrota profissional.

Quis dizer isso tudo para que pudessem saber da verdade. Da mesma forma que vocês sofrem, nós também sofremos.

Pergunto a mim mesma o que é pior: aguentar a morte de um ente querido ou carregar o fardo eterno de ter ficado a olhar para ele, esperando a morte chegar, porque as mãos estavam vazias. Sinto quase como um homicídio culposo.

Saí. Cansei do sistema público. Tentei o máximo que pude, me deixei levar pela raiva e exaustão em determinados momentos, acabando por acreditar, que meu lugar não era ali. E não era.

Eu sinto muito.

Sinto muito pela minha covardia e minha fragilidade emocional.

Existe uma matéria, que relata um fotógrafo, que esteve na África para registrar os absurdos que lá acontecem: fome, sofrimento, desespero. E, por fim, cometeu suicídio.

Certas coisas parecem não ter conserto.

Não concordo com a desistência... mas compreendo.

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