• Dra. Emanuella N. Halabi

A realidade sobre os transtornos sexuais

Hoje tenho a pretensão de ser breve. Na verdade, posso dizer que essa postagem poderia ser resumida, talvez, em um parágrafo, mas tendo a me estender um pouco para poder deixar o assunto plenamente claro.

Não estou aqui para falar de termos médicos ou dar explicações mais aprofundadas, apenas para sanar, de uma vez por todas, a dificuldade tão grande que têm as pessoas em diferenciar um transtorno psiquiátrico sexual de uma orientação ou comportamento. Essa dificuldade ou falta e conhecimento de uma forma geral, muitas das vezes, atrapalha e complica a vida daqueles que estão tentando se encontrar e se ajustar à sociedade, por já se considerarem deslocados.

As expressões “transexualismo”, “homossexualismo”, “travestismo” existem, sim, na língua médica, mas por qual motivo elas entram na seleção de transtornos psiquiátricos?

Bem, como uma explicação inicial e breve, o transtorno psiquiátrico, de uma forma geral, é definido por algo [comportamento, sensação, etc], que traz sofrimento para alguém ou às pessoas ao seu redor, que com ela se relacionam.

Como exemplo, podemos colocar a ansiedade. Muitas pessoas têm uma ansiedade muito intensa, expressiva, e outras podem ter algo moderada ou quase inexistente. Níveis de ansiedade são diversos, variando de pessoa para pessoa, de forma que não há algo, alguma escala, que possa definir, efetivamente, o que é um problema para alguém. O que pode ser fora do comum para você, pode não ser para o outro, e vice-versa. Há uma situação, contudo, na qual a pessoa se percebe fora de seu usual, de seu controle habitual, perdendo a capacidade de lidar com as dificuldades do dia a dia por conta de um quadro de ansiedade fora do comum; querendo dizer, então, que a ansiedade deixa de ser um mecanismo de defesa de nosso organismo, para se tornar uma agressão e prejudicial a ele, já que se mostra impeditivo de coordenar as situações.

Assim, quando consideramos que a ansiedade está se tornando prejudicial e extremamente sofrida e desgastante, podemos, sim, considerar como um transtorno psiquiátrico, pois a pessoa necessita de ajuda para se restabelecer e tornar ao seu normal.


“Mas como acontece com o esquizofrênico, que acredita no que está acontecendo e não necessariamente sofre com o seu transtorno?”


Bem, neste caso – assim como, possivelmente, em quadros maníacos presentes no Transtorno Bipolar –, conforme antes dito, o transtorno psiquiátrico também pode ser considerado, quando as pessoas ao redor [familiares, amigos, cônjuges] vêem a si mesmos sendo prejudicados ou percebendo o comportamento da pessoa como potencialmente prejudicial e, muitas vezes, perigoso a ela.

Obviamente, que há comportamentos variados em nossa sociedade e, nem sempre, algo que prejudica a pessoa e àquelas ao seu redor pode ser considerado um transtorno psiquiátrico. Muitas vezes, a psicoterapia é capaz de contornar determinados comportamentos e padrões, ajudando à pessoa a melhor lidar com as suas dificuldades, formas de se adaptar ao cotidiano, de maneira, que, sim, pode ser dispensado o tratamento psiquiátrico.


Com essa explicação, podemos, então, retornar à grande questão: quando podemos considerar uma pessoa homossexual/transexual/”travesti” com transtorno psiquiátrico?

Então, com essas informações, podemos concluir que somente existe algum transtorno quando a pessoa sofre diretamente com o que sente e com seu comportamento. SOMENTE ASSIM.

Não, ela não tem um problema se for homossexual, ou transexual ou se gostar de se vestir como alguém do sexo oposto, somente se chegar a um consultório psiquiátrico e dizer que sofre por conta de sua condição, por conta de seu comportamento.


“E o que você faz se a pessoa sofre? Tenta curar?”

Curar?! NÃO.

Não existe cura para algo que não é doença.

O essencial aqui é ter bastante claro em mente, que ser homossexual, transexual, travestir-se, masoquismo, sadomasoquismo, etc não são doenças e ninguém escolhe sua orientação, sua forma de se ver e seu comportamento. Isso faz parte da forma como se forma a nossa personalidade e por nossas experiências.

O que fazemos – psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, terapeutas em geral – é ajudar a pessoa em questão a lidar melhor com seus desconfortos, lidar melhor com a situação, acabar com o seu desespero. Estamos aqui para ajudar, somente; para mudar uma realidade de sofrimento e não a realidade. Nós somos como somos e temos a capacidade de nos adaptar; é para isso que estamos aqui.

Vamos acabar com o preconceito e com uma visão retrógrada do que são determinados comportamentos humanos. Há anos foram retirados da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde [CID], assim como do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais [DSM].


Coloquemos desta forma, então: se a Organização Mundial de Saúde [OMS], se a comunidade médica desconsidera completamente como transtornos, por qual motivo temos que ter esse tipo de pensamento e julgamento para com outro ser humano?

Muitas das vezes o sofrimento dessas pessoas é causado exatamente por se sentirem julgadas e não aceitas pela sociedade. O quão culpados podemos ser ao causar sofrimento a uma pessoa, que jamais lhe fez qualquer mal?

Aqui entra a série de perguntas tão usual, que frequentemente fazemos ao simples preconceituosos: De alguma forma essa pessoa interfere na sua vida? Desde quando o modelo de vivência dela atrapalha o seu? De que forma essa pessoa está acabando com a nossa sociedade?

A verdade é que nenhuma dessas perguntas têm resposta afirmativa justificada com um mínimo de coerência.

Toda e qualquer resposta pode ser quebrada a partir da seguinte contraposição: “Não está na CID, não está no DSM. Se a comunidade médica, em especial a comunidade psiquiátrica – na qual acredita que tais pessoas encontram-se inseridas – diz que não há doença alguma, com qual propriedade você pode dizer que é?”


“Ah, mas o que você diz dos pedófilos?”


Era um ponto especial, no qual queria chegar. Coloco aqui esta explicação apenas para que os que desejam contestar não se esqueçam do que falei há alguns parágrafos acima: um comportamento sexual é um transtorno quando causa problemas a si mesmo e/ou aos outros. Assim, qualquer forma de comportamento – seja pedofilia, voyerismo, sadomasoquismo, etc – que esteja causando danos físicos ou morais a outras pessoas, ou são comportamentos realizados sem consentimento e sem controle, sim, são considerados transtornos. Isso, sim, está discriminado no escopo de transtornos psiquiátricos.

Gostaria de uma atenção especial ao comentário abaixo, que deve ser muito bem frisado e gravado em nossas mentes.


TRANSTORNOS SEXUAIS ENGLOBAM SOMENTE O QUE FOR PREJUDICIAL AO INDIVÍDUO E/OU ÀQUELES AO SEU REDOR.

E tentei ser breve.

Sinto muito; minha indignação para com o comportamento humano é sem tamanho; e não me refiro ao comportamento ou orientação sexual alheia.

Espero que tenha sido clara.

Isso foi uma afirmação? Sim. Esse texto não se baseia na minha opinião como pessoa, mas, sim, na realidade e no que diz a Medicina dos dias de hoje.


#diganaoaopreconceito #todoscontraopreconceito






"O preconceito é uma opinião não submetida à razão."

~ Voltaire ~




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