• Dra. Emanuella N. Halabi

A ajuda que muito atrapalha

Atualizado: 14 de abr. de 2018

Neste parco período que tenho de experiência psiquiátrica, não foram poucas as vezes que ouvi a frase: “Eles tentam ajudar, mas eu me sinto pior ainda”.

Quadros depressivos, de ansiedade, ou qualquer outro transtorno psiquiátrico – usualmente que estão dentro de um nível de consciência da pessoa – podem mudar de forma considerável seu comportamento, a maneira de lidar com as situações ao seu redor e mesmo a forma como vê a si mesma e aos outros. Isso não se dá de maneira voluntária; ninguém escolhe sofrer ou opta por “se deixar levar pelo sofrimento”.

O distúrbio psiquiátrico, independente de qual seja, impõe-se sobre a pessoa que dela sofre. Ninguém começa, simplesmente, a se deixar levar pela chateação, ou ver as coisas de maneira mais negativa por opção. Por mais que seja difícil para as pessoas compreenderem, os transtornos psiquiátricos são distúrbios químicos, como qualquer outra doença dentro da Medicina, que tem de ser equilibrados, simplesmente. Assim como em um quadro de Hipertensão, Diabetes, a medicação entra para equilibrar determinadas substâncias, que estão causando alterações físicas. Olhando por este ângulo, não há como controlarmos, apenas com a força da nossa vontade, um aumento de pressão arterial ou o aumento da glicose, ou qualquer mecanismo correto e regular do nosso corpo. Nem tudo é voluntário e espontâneo, ocorrendo da mesma maneira, por exemplo, em um quadro depressivo.

Não, a pessoa não se deixa, simplesmente, levar pela tristeza, pela má interpretação das situações ao seu redor. Em um estado comum de todos nós, somos capazes de ficar tristes, ansiosos, felizes, com raiva, com medo, porém conseguindo lidar com tais sentimentos, separá-los e continuar vivendo nossas vidas. Quando nos encontramos vivenciando um quadro psiquiátrico, repetindo, encontramos um distúrbio químico, no qual não há como fazer, simplesmente, a opção de ignorar ou não tais sensações.


É neste ponto que reside o grande problema.

Assim como a própria pessoa – ainda que, obviamente, em menor escala e de maneira diferente – a família e os amigos sentem, sofrem e têm dificuldade em lidar com a situação. Deste modo, acabam tendo um tipo de comportamento que pode dificultar a melhora, senão piorar, o quadro que já está instalado.

Evidentemente sempre temos a intenção de ajudar. Desejamos que a pessoa querida livre-se de uma situação extremamente prejudicial, que, claramente, está minando todos os âmbitos de sua vida [relações sociais, relacionamento amoroso e familiar, trabalho, atividades de lazer, etc], porém devemos ter muito, mas muito, cuidado com a maneira com que falamos com ela ou “impomos” – por assim dizer – o nosso julgamento.


“Você não era assim.”

“A pessoa que eu conheci nunca teria desistido.”

“Você nunca chorou desse jeito e agora é a única coisa que sabe fazer.”

“Desde quando você tem medo de sair na rua?!”

“Pára com essa frescura!”

“Você está fazendo um papel ridículo[a].”

“Não consigo conviver com essa pessoa que você se tornou.”

“Vai fazer drama para outra pessoa, não para mim.”


Quem nunca falou ou nunca ouviu esse tipo de coisa?

Para quem já ouviu: acredite, não é por maldade. Muitas das vezes, as pessoas só querem ajudar, só querem que você melhore e, sim, têm um sofrimento genuíno ao vê-lo[a] de tal forma.


Para aqueles que já disseram frases assim ou semelhantes: por favor, não façam. Isso não somente não ajuda, como pode piorar o quadro e o sofrimento da pessoa. Esse tipo de comentário faz com que a pessoa sinta-se culpada pelo seu comportamento, pela forma como está agindo e infligindo às outras pessoas, tanto de forma emocional, quanto pela convivência. Muitas vezes acabam acreditando, piamente, que não são dignas de estarem perto, que não devem falar sobre o que sentem, que, muitas vezes, o mais adequado é deixarem de existir.

Sim, isso acontece; e muito. Os pensamentos de fazer mal a si próprio podem surgir pela forma como tratamos a pessoa que sofre, pelo simples fato de perceber que está desapontando e pode perder os que mais preza.

Cuidado. Muito cuidado.

É muito compreensível a tristeza dos amigos, familiares, cônjuges, ao ver a pessoa amada sofrendo. É comum perdermos um pouco o controle de determinadas palavras, porém, muitas vezes, essas palavras são decisivas aos ouvidos de quem as está recebendo.


Por mais que absorva o que foi dito a ela, por mais que compreenda que está mudada, que, na maioria das vezes, seu comportamento atual esteja totalmente fora do padrão, é ainda mais desgastante não conseguir fazer nada sobre isso, sozinho, pois um desequilíbrio químico não se resolve com a simplicidade da nossa força de vontade.

O que resolve, de fato, a questão e faz com que “coloquemos tudo no lugar”? Tratamento e, acima de qualquer coisa – de qualquer medicação ou psicoterapia –, apoio e carinho.

Compreensão do que está acontecendo, demonstrar que está ao seu lado e ter paciência com a sua evolução, melhora são essenciais, até porque tratamento é algo variável, que depende muito do que está acontecendo, da receptividade do organismo e da própria pessoa no discorrer de uma possível terapia.


Não julgue, não force, não agrida com palavras; deixe que o tempo discorra e a pessoa possa sentir as variações do tratamento, a melhora gradativa, sempre tendo aqueles que tanto considera ao seu lado.


Incentive o tratamento, incentive o cuidado e erga-a, quando escorregar ou cair.

Faça parte do seu tratamento e não a aproxime mais de sua angústia.

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