• Dra. Emanuella N. Halabi

Defensores dos "frascos e comprimidos"

Atualizado: 14 de abr. de 2018

Talvez não seja este o melhor título para se iniciar um blog médico, concordo, entretanto imagino que, em determinado momento, fará todo o sentido.

Durante algum tempo – tanto antes, quanto depois de ter sido graduada médica – diversos profissionais da área deixaram bastante claro, que muito do que faz o verdadeiro médico não é, essencialmente, sua montante de conhecimento, mas, sim, sua capacidade de confortar, despertar confiança e saber ouvir o paciente.

De certo modo, podemos colocar em jogo, que a política de saúde no Brasil é muito diferente daquela colocada em prática em outros países, especialmente se compararmos aos, da Europa e América do Norte. Aqui, consideramos como um grande peso tudo o que o paciente fala, representando 85% do nosso diagnóstico, além da importância imperativa de um bom acolhimento e capacidade de fazer com que se sinta bem.

Em países com maior desenvolvimento, encontramos uma relação médico-paciente praticamente nula, na qual o diagnóstico, quase que 100%, baseia-se na solicitação de exames de primeira linha. Faz sentido, que, com a possibilidade de realizar tais exames, sejam solicitados e realizados de modo a dar determinados diagnósticos com maior precisão e rapidez, mas e quando não há necessidade alguma?

Sim, na grande maioria das vezes somos capazes de dar diagnóstico apenas com o relato de uma pessoa e apenas fazemos confirmação através de exames; por vezes, o tratamento se inicia antes mesmo dos exames ficarem prontos, pois passa a ser somente uma confirmação absoluta de certeza.

Muitas doenças e transtornos são bastante específicos, com sintomas particulares de cada uma, de maneira que muitos exames tornam-se desnecessários e somente mais um estresse ao paciente, tanto com gasto de dinheiro, como de tempo.

Por que isso acontece?

É difícil de explicar e determinar algo cultural, pois cada país ou continente tem a sua forma de agir e pensar, mas, talvez, tenha sido essa a forma que encontraram – ou assim acreditam – de agilizar o tratamento. Neste ponto é compreensível, contudo, sem dúvida alguma, deixa a desejar na forma como o paciente é tratado.

Isso não é uma impressão médica da minha parte ou de outros colegas, mas, sim, de pessoas, pacientes, que foram atendidos no exterior e sentiram-se desconfortáveis pelo “descaso do médico” que o atendeu. De fato era descaso ou, simplesmente, o costume cultural de comportamento?

Todos são sujeito à sua própria cultura, assim como naquela, a qual decidimos nos inserir ao imigrar, portanto estamos diretamente ligados à forma como somos tratados em qualquer tipo de ambiente, seja social, familiar, comercial, médico, etc.

No que diz respeito ao médico brasileiro, as opiniões são muito variáveis, claro, pois cada um tem a sua maneira de trabalhar e prescrever. Independente do modo, deveria existir algo em comum a cada um de nós: atendimento de qualidade.

O atendimento de qualidade, infelizmente, não é algo inerente ao médico e isso não tem a ver com a sua montante de conhecimento.

Neste ponto, prefiro falar especificamente da minha especialidade médica: a Psiquiatria.

Não estando plenamente inserida no comportamento e na resposta dos pacientes de outras especialidades, prefiro me ater à minha, para falar com propriedade sobre o assunto em questão.


Na Psiquiatria não há exame específico para seus transtornos e, muitas das vezes, os exames solicitados são, apenas, para excluir outras possíveis causas clínicas dos sintomas apresentados. Nosso diagnóstico, portanto, baseia-se puramente nas palavras do paciente – e até de seus familiares –, naquilo que sente e a forma como vê as coisas ao seu redor. Quem procura ajuda, deseja ser ouvido e confortado por alguém que compreenda de verdade o seu sofrimento, que poderá ajudá-lo a melhor lidar e, claro, direcionar o tratamento, que mais condiga com o que está acontecendo. Em uma porcentagem grande dos pacientes, que por esse consultório passam – posso dizer que mais de 50% destes –, jamais procuraram um tratamento psiquiátrico anteriormente e têm receio do que encontrarão pela frente. Ainda assim, vendo-se sem opções, com o sofrimento a ponto do desespero, tiveram que se render e buscar ajuda. Além destes, há outra porcentagem, que inclui àqueles que não desejam tratamento psiquiátrico e não acreditam necessitar.

Colocando essas informações sob perspectiva – e igualmente considerando que, até hoje, a Psiquiatria ainda é dita como um tabu e não foi completamente desmistificada –, o que esta gama enorme de pacientes fará e pensará ao se deparar com um médico que mal levanta o rosto para olhá-los e prescreve medicações após cinco, dez minutos de consulta?

Aos meus olhos, é o absurdo dos absurdos.

Como um psiquiatra, que precisa ouvir tudo o que o paciente tem a dizer, que tem diversas informações específicas para colher, uma quantidade enorme de perguntas sobre sua vida, faz uma avaliação sem empatia alguma? Muitas vezes essa pessoa vai embora e nunca mais procura um tratamento psiquiátrico ou leva muito tempo para procurar novamente; e nisso, seus sintomas podem ir agravando, piorando progressivamente o seu quadro.

É isso que uma pessoa, que busca ajuda, merece?

Como um profissional pode permitir, que alguém saia de sua sala, após cinco minutos de consulta?

Não foi uma, duas ou três vezes, que recebi pessoas dizendo, que o médico lhe atendeu anteriormente sequer levantou o rosto para olhá-lo ou não pareceu ter prestado atenção em nada do que dizia, mais preocupado com o relógio. Por vezes, não poucas, me deparei com prescrições, que nada tinham a ver com o quadro do paciente.

Jamais contestaria a conduta de um colega, especialmente por não saber o que viu naquele momento de seu atendimento, porém certas situações têm limite e já me vi embasbacada. Pacientes com quatro, cinco medicações há meses, anos, que troquei por uma ou duas, e ficaram bem em muito pouco tempo.

Isso não faz de mim a médica com maiores conhecimentos e experiência do Rio de Janeiro, do Brasil, do continente, do mundo; muito pelo contrário. Estou dentro daquele grupo normal de seres humanos, que decidiram estudar e se formar para fazer diferença para alguém, para ajudar genuinamente àqueles que precisam e buscam auxílio. Esse tipo de compreensão só fui ter depois de um bom tempo de formada, depois que comecei a praticar, efetivamente, a Psiquiatria.

Em um primeiro momento, existe um deslumbre muito grande de que se vai salvar o mundo, de que todos trabalham juntos por um bem maior. Não é exatamente dessa maneira que funciona, infelizmente percebi.

Nem todos dão tanto valor, ou deixaram de dar valor, à verdadeira queixa do paciente; não vê-lo como uma parte de um corpo, mas como um ser humano completo.

Somos médicos, mas também, humanos; somos médicos, mas também, pacientes. Então, por que esse tipo de comportamento acontece?

Aonde que todo aquele idealismo de fazer o bem se perdeu? Aonde que aquela pessoa deixou de trabalhar em prol de um cuidado com o outro? E isso não é necessariamente na Medicina, mas podemos ver em todos os tipos de serviço, que têm contato direto com o público.

A verdade é que não há melhor tratamento do que o cuidado, o carinho e a atenção que é oferecida a uma pessoa; muitas vezes, a única coisa que busca é ser ouvida e compreendida, recebendo uma ou duas palavras de apoio, de cuidado, de que tudo dará certo, de uma forma ou de outra.

Poucas coisas, devo dizer, são tão maravilhosas quanto ouvir de alguém “você fez o meu dia”, ou “você tem um dom” ou “nunca me senti tão cuidado[a]”. Isso não quer dizer que sou a melhor, mas que cuidei, apenas; que estive ali, quando precisaram de mim; que estendi a mão, sorri e disse que tudo ficaria bem, que tentaria de todas as formas ajudar; que estaria presente em tudo o que precisasse, que tudo o que necessitava era de um telefonema.

Aonde, então, foi parar a alegria de saber que se fez o bem, para dar lugar à exaltação da medicação displicentemente prescrita...?


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